Notícias
Os enteados de Nobel
Alfred Bernhard Nobel (1833-1896) foi um químico sueco que fez uma fortuna com a invenção da dinamite e de outros explosivos. Na altura, usavam-se materiais muito sensíveis às oscilações de temperatura e de manuseamento muito delicado e perigoso. Nobel conseguiu embeber nitroglicerina, um explosivo poderoso e muito instável, numa substância terrosa inerte, uma espécie de areia fina. Com isso criou um material transportável com segurança e que mantinha a sua potência explosiva. Nobel inventou ainda um explosivo gelatinoso mais potente, a gelatinite, e um conjunto de materiais similares. Fez uma fortuna e houve quem o acusasse de tirar lucros com a morte dos outros.
Ao que se diz, em parte para afastar os remorsos por ter contribuído para o uso de materiais explosivos nas guerras, Nobel legou a sua fortuna para premiar quem se destacasse em servir a humanidade, nomeadamente contribuindo para a paz e para o bem-estar. Em 1895, um ano antes de morrer, Alfred Nobel assinou em Paris o seu testamento, destinando-o a subvencionar cinco prémios: Paz, Literatura, Física, Química e Medicina. Na altura, todas estas áreas eram centrais da actividade humana e a Física e a Química eram as ciências em desenvolvimento mais acelerado. Faria pouco sentido, por exemplo, instituir um prémio para a Economia, na altura ainda muito literária. A Matemática também não tinha o desenvolvimento aplicado e a transversalidade que hoje se conhece.
O mundo evoluiu. A União Matemática Internacional criou o seu próprio prémio, tão prestigiado que se considera por vezes o 'Nobel da Matemática'. Trata-se da medalha Fields, que é atribuída de quatro em quatro anos, por ocasião do Congresso Internacional de Matemáticos, a investigadores que tenham obtido resultados especialmente relevantes no período anterior.
A Economia, entretanto, evoluiu para se tornar uma ciência quantificada, com recurso a modelos matemáticos que permitem estudar as relações entre os factores de desenvolvimento da vida económica. Tornou-se tão importante que o Banco da Suécia promoveu o 'Prémio em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel'. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, esse prémio não é subsidiado pelo fundo Nobel, mas é entregue em simultâneo com os que este fundo financia.
Nuno Crato
In Expresso Online, 20/10/2008