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Como a vida em Vénus se tornou impossível
Num passado longínquo, o planeta Vénus esteve coberto de oceanos, mas, em vez de criar vida, tornou-se numa fornalha cuja atmosfera é composta por 96,5% de CO2, revelam dados enviados pela sonda europeia Venus Express.
"A água presente em Vénus no passado simplesmente evaporou-se. Ainda há traços de água na sua atmosfera e nós podemos actualmente observar como decorre este processo", declarou à AFP o investigador da Agência Espacial Europeia (ESA) Hakan Svedhem, autor de uma séria de artigos, publicados na revista 'Nature', dedicados ao planeta conhecido também por "Estrela do Pastor".
A primeira missão da ESA ao planeta, através da sonda Venus Express, pretende fazer observações globais à atmosfera venusiana, às características de superfície e à interacção do ambiente do planeta com o vento solar.
Embora seja 'prima' do nosso planeta em massa e tamanho, Vénus tem actualmente uma temperatura média que ultrapassa os 450 graus na superfície.
Tal como a da Terra e a de Marte, a atmosfera venusiana teve a sua origem na desgasificação dos vulcões e era principalmente composta na sua juventude por vapor de água e dióxido de carbono.
Uma espessa camada de nuvens de ácido sulfúrico, provavelmente de origem vulcânica, tinha até agora impedido a aquisição de boas imagens da atmosfera venusiana, mas, graças à utilização de uma nova fracção do espectro luminoso, a Venus Express "desenha hoje uma carta a três dimensões desta atmosfera, que nos permite compreender muito melhor a meteorologia e a circulação" da atmosfera venusiana, assegura Svedhem.
Os ventos na alta atmosfera de Vénus sopram três vezes mais rápido do que um furacão na Terra a 70 quilómetros de altitude, enquanto que o planeta gira sobre si próprio muito lentamente, à razão de um nascer e pôr-do-sol a cada 243 dias terrestres.
A rapidez dos ventos, que permite repartir uniformemente as temperaturas na superfície e explicam a ausência de estações, foi medida seguindo as nuvens de ácido sulfúrico que circulam na alta atmosfera.
No interior destas nuvens, a sonda mediu diferenças de 30 a 40 graus entre as temperaturas diurnas e nocturnas, que não podem ser explicadas unicamente pela radiação solar.
"Potentes correntes descendentes poderão aquecer o ar por compressão", estima na 'Nature' Andrew Ingersoll, do California Institute of Technology.
Uma outra interrogação relaciona-se com a existência de relâmpagos, que não se deveriam produzir em nuvens que se aparentam às nossas nuvens de poluição.
A Venus Express detectou ainda ondas electromagnéticas de baixa frequência, que duram uma fracção de segundo e deverão resultar de uma descarga eléctrica.
"Talvez nós não tenhamos descoberto todos os meios pelos quais a electricidade pode ser gerada na atmosfera de um planeta", considera Ingersoll, que pensa que "se um dia nós conseguíssemos seguir os fenómenos climáticos em Vénus como o fazemos na Terra, poderíamos começar a compreender a meteorologia em geral".